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Conversas no ônibus: o peru de Natal



Ônibus lotado, um empurra-empurra e o cheiro... Aquele desagradável de gente suada e honesta que trabalhou o dia todo. Duas mulheres sobem no zarco e ficam atrás de mim, tagarelando. Sem nenhuma outra opção, escuto a confissão:

- Vou te falar, eu prefiro o patrão, não tem nem comparação – disse a baixinha e roliça.
- Também gosto mais do meu patrão do que da patroa. - corta rapidamente a magricela de vestido.
- É, né guria? O seu Alfredo vai lá na cozinha, faz comida com a gente, mais humilde, sabe? Agora a patroa não vai, diz que pega gordura no cabelo.
- A minha não suporta atrasos. Esses dias perdi o ônibus, cheguei às 7:15, lá tava ela de pijama com a xícara de café na mão me esperando, desesperada. Disse que pensava que eu iria faltar e aí queria saber como a família iria almoçar.
- Eles que fossem almoçar fora, já que dinheiro não é o problema.
- Fiquei nervosa e comecei a tremer na hora, mas não falei nada. É melhor assim. Não consigo responder de bom grado, mais deixa chegar perto do natal que vou falar. Ah, se eu vou! Vou pedir uma ajudante porque não dou conta da casa sozinha, antes tinha, mas ela demitiu.
- Lá nos Fernandes também demitiram a Cleide, aí pegaram a Nora, essa era folgada! Não fazia o serviço direito, a patroa preferiu demitir a Nora e voltar com a Cleide, foi buscar em casa e tudo.
- Vish! Já a minha é uma bicha orgulhosa, sentiu falta da... Nem lembro o nome dela, tadinha, mas não é capaz de ligar, acredita?
- Acredito, acredito em tudo nessa vida.

(Nisso a magricela apertou o sinal para descerem no próximo ponto.)

- Então, pode acreditar que se ela não colocar uma pessoa pra me ajudar vou pedir a conta.
- Sério?
- Capaz, sua tonta! Esse é o discurso que sonho em falar, mas daqui a um mês é Natal e como eu vou comprar o peru sem salário?

(Desceram do ônibus e uma parte de mim desceu com elas, aquela que levava desaforo pra casa para ter peru no dia 25 de dezembro.)