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Faxina de quarta-feira (ou o dia que Paulo morreu pra mim)



          Penso que o principal instinto que nós temos é o da sobrevivência. Corridas, pulos, gritos, lutas e pensamentos, acabam contribuindo para a perpetuação da espécie. No momento do pavor viramos bichanos enjaulados querendo encontrar a saída. Alguns usam o pensamento, outros a força bruta. Na hora do pega pra capar vence o mais esperto ou o mais forte?

Em certas circunstâncias o ser humano se reduz a um simples mamífero. Acha que estou mentindo? E aquela cena de marido e mulher berrando dentro de casa como se fossem cães disputando um pedaço de carne? E aquela briga na boate entre dois caras, porque um olhou para a namorada do outro? São como dois leões guerreando a fêmea. E aquele racha no trânsito para ver qual carro (ou seria o motorista) é mais potente? Parecem abutres na debandada. Existem situações que é preciso usar os dentes, como diante de uma tirania, por exemplo. Tirania contra caráter, valores e paz. Porque uma vida sem paz resume-se a pó. Quanto vale a sua paz?

Perdão é uma palavra muito bonita. E a atitude de perdoar alguém é muito digna. A pessoa que exerce essa arte é uma mestra em amor próprio, porque na hora da raiva somente há a injustiça de não poder se libertar do outro. Amor incondicional é o lema da vez, mas na prática é muito difícil quando o agressor não reconhece o erro. Sei que o perdão não tem o termômetro para medir o quanto doeu, mas eu tenho.

Quero deixar claro que estou escrevendo aqui sobre agressão verbal e o orgulho que corroí a alma diante do culpado. E não poderia deixar de citar a carência que manipula o sujeito a permanecer na inércia do pensamento de não agir. Dona Maria que é sustentada pelo seu João aguenta toda semana um tapinha no rosto. Senhora Gertrudes que tem medo da solidão tolera todos os dias xingamentos do Zé. Manuela, moça moderna, atura vários pratos quebrados por Paulo depois da festa aos sábados. Essas histórias se repetem ao longo das décadas nos jornais, nos bares, na televisão e dentro de casa.

Eu olhei para vocês hoje, mulheres da minha vida cotidiana e enxerguei por traz do desviar de olhos, da postura arqueada, das mãos tremulas e da súbita gagueira; o sofrimento da impotência de se rebelar. E este texto é uma maneira de proclamar: não a tirania da violência física e verbal! Porque ambas matam. Eu já morri várias vezes, mas cansei de passar raiva calada. Agora, eu grito, esperneio e falo, mesmo. Cresci com a sentença de se colocar no lugar do outro e ceder, pois pensava que era feio divulgar os problemas por aí. E ninguém gosta de pessoas feias, né? Nada disso, sentir raiva é humano e não tem nenhum mal em compartilhá-la. Pode ser por meio de fala, gesto ou escrita – no meu caso. Esvazie-se para depois se encher de coisas boas. Visto que em casa cheia de fumaça não entra luz. Este é o meu desejo, que em 2013 você desorganize a casa com dedicação, jogue fora o que não presta e a arrume - quantas vezes for necessário.