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Relacionamento escolar




Ele era baixo, com uma barriguinha saliente, usava óculos de aros pretos e tinha cabelos ondulados escuros com um topete na frente ajeitado com gel. Possuía pés pequenos e calçava sapatos brilhantes enquanto nós todos ainda usávamos all star. Como se não bastasse, todo dia aparecia com uma história nova para contar e um sorriso torto que me deixava estonteada. Pois possuía o que qualquer um da escola gostaria de ter: uma biblioteca particular em casa.

Eu aguardava ansiosamente a hora da leitura, ele sempre começava com uma piada e terminava com uma lição surpreendente. Era impossível não fechar os olhos para imaginar melhor a cena e no fim rir de contentamento. Eu me deliciava com sua voz macia como se fosse aquele moletom de soft de usar em casa. Ele era a minha novidade, meu anseio e a minha salvação do tédio de cada dia. Os finais de semana eram terríveis, porque sem sua presença minhas histórias não tinham o mesmo tempero.

Até que chegou o meu aniversário e há quase um ano eu planejava nossa conversa, mas não tinha coragem de tomar uma atitude. O que uma menina desastrada, tímida e achatada poderia oferecer? Mas naquele dia eu poderia dar-lhe um pedaço de bolo e no mais, todos da sala compareceriam a festa. No final da aula, respirei profundamente e convidei-o para ir à minha casa, às 17 horas para o singelo cafezinho. E ele aceitou.

Quase no horário do evento, meu coração não parava de saltitar e não conseguia me concentrar nos guardanapos que colocava na mesa. Recebi vários beijos estalados na bochecha, cartões coloridos dos colegas e, além disso, ele foi! Quando me abraçou pude sentir o cheiro de colônia barata e sanduíche de atum e com surpresa recebi de presente a coleção de livros da Agatha Christie. Depois daquele dia nossa história mudou, eu não o amava apenas platonicamente, desenvolvi um namoro sustentado por breves conversas depois das aulas.

Na manhã seguinte devorei o primeiro livro e já era perita em desvendar enigmas, praticamente uma detetive particular de primeira. Logo depois da aula fui correndo comentar o que achei da história e como eu suspeitava da viúva, do jardineiro e do policial. Ele sorriu e disse para mim: “Tenho muito orgulho de você, Priscila”. Entendem? Significou mais do que um eu te amo: “orgulho de você”. Era praticamente um pedido de namoro! Nossas conversas eram diárias e sustentadas pela leitura dos livros que ele me deu. Eu não era mais a mesma.

Quando iniciei o último livro da coleção presumi que assim que o finalizasse não teria mais assunto para debater com ele. Ah! Como demorei a lê-lo. Era um livro grosso, com páginas amareladas e capa dura. Cada dia eu comentava uma cena do livro para puxar conversa e ele me ouvia atentamente com olhos esbugalhados de jabuticaba. Eu chegava em casa e fingia não encontrar o livro, lia um parágrafo e parava, cheirava-o e o escondia de novo. Criava as mais falsas dificuldades para não acabar de ler, no fundo, eu sabia que era uma questão de relacionamento. Às vezes dormia abraçada com o livro imaginando ser o meu namorado. Decorava-o com desenhos de corações e lia em voz alta como se fosse gaga.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Até o dia que ele desconfiou da minha real intenção e começou a dar desculpas para não conversarmos mais depois das aulas. Seus passos agora eram apressados, as histórias breves e as piadas esporádicas. Eu entendia perfeitamente seus gestos, mas meu amor só aumentava a cada dia. Não me importava que ele não conversasse comigo frequentemente, ou não olhasse mais diretamente para mim. Eu me contentava somente em apreciá-lo e ouvir seu chamar matinal: Priscila Andreza de Souza? Eu sempre respondia com um sorriso no canto dos lábios e uma piscadinha rápida: presente. E lia atentamente a dedicatória (ou uma promessa, por que não?) nos livros recebidos: Com amor, seu professor Cleber.