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Pintty – a heroína



Impossível pensar na minha infância sem lembrar do meu super cão. Eu sempre gostei de cachorros, gostava dos da minha madrinha, avó e amigas. Escolhia os filmes por tema que naquela época somente me agradava de um: caninos. E é óbvio que repetia a todo instante que queria ter um em minha a vida, mas existia um pequeno problema: a minha mãe não gostava de cachorros.

Até que um dia eu estava passando o final de semana na casa da minha madrinha. Ela me deixava a vontade em dar ração de gato para os cães enquanto ela dormia a tarde eu recortava figurinhas e comia bombons sonhos de valsa, no final da tarde havia comido em torno de uns 20 bombons, sério. Mas o que eu estava relatando é que em uma manhã dessas que eu acordava na casa da minha madrinha, meu pai foi me ver e escondia algo em suas mãos que ele segurava atrás do tronco e me desafiou a adivinhar. Como grande chocólatra que sou pensava que era um Kinder Ovo (ovo de chocolate que contem um mini brinquedo dentro), mas era bem melhor do que um chocolate era uma cadelinha minúscula. E ela veio se chamar Pintty, minha fiel companheira de brincadeiras. Mas essa não era a verdadeira Pintty, pois nela havia uma característica insuportável para a minha mãe: latia e chorava de mais nas noites longas. Por meio do chororô minha mãe me convenceu a trocá-la por um ursinho de pelúcia. E eu ingênua aceitei. Mas quando fui deixar a Pintty no Pet Shop para venda chorei e me arrependi, mas já era tarde de mais. Como fui fraca e insensível com a pequena Pintty 1.

Meu pai compreensivo me deu uma segunda chance e me deu a Pintty 2, essa sim foi a minha fiel companheira de brincadeiras. Ela era praticamente um anjo de quatro patas. Você deve saber como as crianças são malvadas em suas brincadeiras, mesmo não querendo ser. Vamos ser sinceros algumas vezes querem mesmo. Pintty já foi jogada para o alto e eu não consegui acolhera no colo, ou seja, quase perdeu a perna - a pobrezinha. Ela aguentou longas chibatadas de uma corda na qual eu pensava que estava disciplinando ou adestrando, porque queria que ela soubesse fazer truques. Mas ela sabia. Pintty sempre sentava do meu lado com apenas uma batida de mão na cadeira. Isso mesmo, ela sentava na cadeira! Incrível, né? Ela apostava corrida comigo, eu de bike e ela a pé. Adivinha quem ganhava? Ela! Isso me aborrecia enormemente até que um dia pedalei o mais rápido que pude em direção a entrada de casa que era o ponto de chegada e dei de cara no portão. Pensei na hora que tinha esborrachado meu nariz, mas não, só ficou um hematoma que sarou em alguns dias e mesmo assim a danada ganhou de mim. Pintty era muito rápida.

Minha cadelinha era boazinha quase não latia, não fazia bagunça, era muito dócil e ainda cantava! Eu tinha uma flauta que era só ela ouvir que logo começava a uivar afinada com o tom da nota. Muito lindo! Pintty foi mãe. Meu pai como todo pobre querendo virar classe média resolveu cruzá-la para vender os filhotinhos. Em um fim de tarde de sábado, quando voltava da praia fui dar um “oi” para a mais nova mamãe e lá estava um rato em um buraco. Pensei: “a bichana matou um rato!” Mas aí cutuquei e vi que o rato tinha o focinho achatado. Pintty pariu sozinha um filhote e o outro morreu. Por que não acompanhamos seu parto?  Depois de o veterinário ter cuidado dela, Pingo, o filhote, era a mais nova sensação de casa. Ele era engraçado com suas perninhas tortas e como era bravo. Esse latia por quase tudo e eu convenci meus pais a ficarmos com ele. Em um mês eu queria saber somente do Pingo e Pintty ficou em segundo plano. Pingo brincava comigo, corria atrás de mim ao redor de casa, mordia o pano e fazíamos cabo de guerra, cavava vários buracos pelo terreno e era muito desengonçado. Enquanto Pintty estava cansada, só comia e dormia a maior parte do tempo.

Até que em outro sábado ensolarado saí para dar uma volta de moto com meu pai e quando retornamos vi os dois cães enrolados nas correntes. Pintty deitada no sol e Pingo dentro da casinha. Eu como toda criança debochada da minha idade de 11 anos, falei: “Morreu (Havia uma personagem bem engraçada do programa A Praça é Nossa no SBT que falava assim e eu só a imitei, mas você não deve lembrar)”. Fui massagear a cabeça e ela estava morta. Comecei a chorar com fervor e me senti culpada por brincar com a morte daquele jeito e mais ainda por ter pensando que bom foi ela e não ele, o Pingo. Pois, ele se salvou porque sua corrente estava mais frouxa, ou seja, ele fez mais força (a tal lei do mais forte prevaleceu) para entrar na casinha. E era verdade, havia uma preferência por idade, gênero e gosto. Pingo era mais jovem, era macho e brincava mais comigo. Enterramos Pintty no terreno baldio do lado de casa. Sim, o meu atual vizinho mora em cima de um cemitério de cachorro. E isso me soa assustador e maldoso algumas vezes.