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O outro lado da página



“Nem tudo é grana nesta vida”, diz a minha vizinha de banco no ônibus. Eu fiquei matutando essa frase a tarde inteira e sei que soa careta e retrógrada em pleno ano de 2013. Onde impera o capitalismo e o importante é o quanto de trocado se tem no bolso. Mas se for somente isso a vida, ela seria tão sem sal, não acha? “Eu quero uma vida boa!”, afirma a outra do lado direito dessa da primeira frase. O que é ter uma vida boa? Seria ter um monte de mordomias? Penso que é mais do que talões de cheque, mais do que ter um carro 0 km, mais do que a casa própria, mais do que o novo Iphone 5. Não somos coisas, somos seres humanos. Apesar de muitas vezes darmos mais valores as coisas do que aos seres humanos. Acho que nos perdemos em alguma curva da rotina.

Andamos tão indecisos, frustrados e apressados que não dá tempo nem de respirar e observar a paisagem. É tudo grana. Eu estava pensado no meu futuro como jornalista e escritora (me agrada mais o último ofício do que o primeiro), depois de ter recebido um elogio seguido por uma indagação: “Priscila que show! Vi que sua crônica foi publicada em uma revista local, parabéns!” Eu agradeci com um: “muito obrigada” e um sorriso tímido e a pessoa completou: “Pagaram quanto?” Respondi que não pegaram nada, portanto disponibilizei o material de graça. “Puxa, que pena!”, disse seguido de um balançar de cabeça e um olhar de repreensão e saiu assim sem dizer tchau. Ok, deixa eu ver se entendi, se eu não vendo o meu material quer dizer que não vale? Trabalho respeitado é o pago, se é de graça não é valorizado. Ok, mundo cruel. Onde nos perdemos? É assim mesmo, produção? Cadê o roteiro? Porque perdi este capítulo do manual de instrução do como viver em uma sociedade estúpida que só liga para a conta bancaria no fim do mês. Aí eu entendi o mau humor da vizinha, da atendente da loja, do chefe na segunda-feira de manhã e de outros vários conhecidos e desconhecidos meus. Fazemos pela grana, somos assim vendidos mesmo, quem pagar mais leva.

Tudo bem, pode me chamar de romântica, irresponsável, sonhadora e da pá virada, mas o meu job eu não peso por quanto me pagam. Entenda que não acho mal ganhar por meus textos, mas acho muito injusto medir os créditos em reais. E o olhar de compreensão e a lágrima no canto do olho? E o sorriso de descoberta e o agradecimento por traduzir em palavras o sentimento não expressado? Essa identificação do leitor não tem preço. Isso não é medido em moedas.

A mágica da escrita é esta: posso me comunicar a qualquer horário com o outro e ele faz o que quiser com aquilo. Acredito que esse é o grande fascínio que tenho com a informação e literatura (mais com esta do que com aquela), porque ela me parece ser mais sincera e sensível. O outro discurso é que se eu fosse oralizar provavelmente ficaria roxa e daria o famoso branco e não sustentaria tantas ideias. No papel é diferente. O papel aceita tudo, é imparcial, é novo e é puro mistério. E nele eu sei que posso todas as coisas. Esse poder me fascina, o troco no bolso é um simples bônus, pensando em todo esse outro universo que crio do lado de cá, da utopia.