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O bolo


O lugar estava decorado com rosas brancas e cristais, achei meio careta, mas não estava feio. Na capela deveria ter uns 50 casais mais eu e meu amigo gay e comparsa. Decidi ir ao casório e levei companhia por mais que estava na cara que nós não estávamos saindo, mas mesmo assim me senti melhor segurando um braço masculino e o bom é que não precisei levar bolsa, mas você iria suspeitar que o cara era só meu cabeleireiro novo assim como todos no recinto. Primeiro pelo corte moicano com topete na frente dele e segundo porque você me conhece o bastante para saber que depois de você não consegui namorar mais ninguém.

Ela estava linda. Não, mais do que isso! Radiante. O vestido era como se fosse parte da pele dela e aquele véu deu inveja até na avó sentada no segundo banco. Só não gostei do scapin bege, achei antiquado. Se fosse o meu seria vermelho, assim como as rosas... Mas não era o meu casamento e não poderia ser, eu não casaria em uma igreja com mais de 50 pessoas. As madrinhas vestiam azul turquesa e os padrinhos usavam gravatas de bolinhas azuis. O casal de daminhos riram e tropeçaram várias vezes na entrada, achei uma fofura. 

Devo confessar que achei revolucionário, a noiva assumir o posto do noivo. Ok, vou ser sincera contigo, como sempre fui, achei ridículo ela ficar lá plantada te esperando para bancar a moderninha. Todos sabemos que a Bia é tradicional, sempre foi. Mas tudo bem, talvez tenha sido um artificio para chamar a atenção pra ela e deu certo. Enquanto ela estando lá na frente pude reparar no bordado do vestido e como os braços dela são finos e as mãos delicadas. Ela parecia impaciente, como se tivesse se arrependido da escolha. Não do casamento, mas de esperar você lá na frente de todos.

Eu levei um Bubbaloo de melancia para caso de eu sentir enjoo... Fui no banheiro umas cinco vezes, mas não passei mal. E além do Alfredo e da Tamara ninguém mais falou comigo. Achei um absurdo! Já fazem quantos anos? Quatro? Que gente rancorosa! Tá bom teve aquela vez de dois anos atrás que saímos, mas ninguém sabe... Ou você contou? Não, isso acabaria com o resto da amizade que nos sobrou. Hoje estou mais conformada, eles escolheram você. Não tem como eu competir contigo, desde o princípio foi o seu grupo de amigos da adolescência, eu sou a intrusa. E sei bem a hora de dizer adeus.

Você deve estar se perguntando por que eu fui... Eu resolvi ir, porque... Bem, você me mandou o convite! Pelo correio, sendo que moramos na mesma cidade... Mas mesmo assim ainda é um convite. E a minha raiva era enorme, mas não maior que a minha curiosidade em vê-la vestida de noiva. Bia estava uma boneca. Confesso que pensei em estragar o casamento, em pedir para anular, sei lá fazer barraco. O que sempre foi fácil para mim e ali seria mais fácil ainda, porque sei que você ainda me ama, só é orgulhoso de mais para admitir. No entanto eu não poderia dar um show na Bia, não seria justo fazer drama na frente dos nossos amigos e com a família dela presente. E também foi escolha sua, é hora de ser responsável pelo menos uma vez na vida.

Você não foi. Seu covarde! Deixou a coitada lá de pé esperando e sendo humilhada pelos olhares incrédulos e piedosos. Depois de meia hora de espera o casamento foi anulado. O bom da noite é que comi bolo, a festa seria ali do lado da capela e é pecado desperdiçar comida ainda mais na frente dos mais velhos. Ali comendo o nosso bolo preferido, bolo de chocolate com cobertura de chocolate, eu lembrei o motivo de ter terminado contigo na formatura  há quatro anos  e percebi que o amor que eu pensava sentir tá mais para sentimento de posse e dor de cotovelo. Na verdade a única coisa que nos une, fora o gosto por bolos é a nossa irresponsabilidade de tomar conta do outro.

Quero te agradecer, por ter feito isso comigo, não com ela, por Deus a Bia não merecia aquele papelão, mas obrigada por me lembrar que eu nunca confiei em você.

OBS: tenha a certeza que esta é a última carta que escrevo e eu preciso de uma resposta sua urgente ainda nesta semana, tá?
OBS2: Ok, leve  o tempo que precisar, não importa, só manda um sinal de fumaça para eu saber que você está vivo.

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