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Ensopadinho de fígado


A rua estava lotada, o sol escaldante e todos estavam com pressa para retirar a quentinha na esquina, inclusive eu. O motivo era o prazo, meia hora para almoçar. Eu precisava caminhar até o restaurante, fazer o prato, comer, escovar os dentes e voltar para o trabalho. Ok, essa penúltima não é obrigatória. Mas ninguém gosta de trabalhar sem escovar os dentes, só o meu chefe. Ele vive estressado e quanto mais fica agitado mais tem bafo. É algo com relação ao sistema nervoso e ficar sem comer durante um longo tempo e mais algum blá blá blá, que diz a matéria da revista que não consegui terminar de ler que carrego amarrotada na mochila.

O restaurante fedia a alho e a algum legume azedo, o buffet tinha um tipo de carne: a de sempre, ensopadinho de fígado. Peguei uma colher de arroz, meia do tal ensopadinho, três cenouras e muita batata palha para enfeitar. A comida era a vontade, assim dizia o contrato de estágio que eu havia assinado há seis meses, só não estava incluso a bebida. Com um calor arrasador a cidade não via chuva há quase três semanas. Joinville conhecida como a terra da chuva parecia o deserto do Saara. O item essencial que todos carregam é a famosa sombrinha. E eu como toda garota joinvilense que se preze carregava uma rosa com bolinhas azuis.

Eu precisava de um refrigerante, suco, água, qualquer líquido gelado que pudesse saciar a minha sede imediata. Sentei na cadeira e apoiei a bandeja na mesa de sempre, a segunda da fileira à direita de frente para o ar condicionado. O bom deste restaurante é que quase não tinha ninguém, acho que o motivo é por oferecer sempre o mesmo tipo de carne ou por causa de ter fechado quase duas vezes em menos de um ano pela Vigilância Sanitária. Contei as moedas na minha carteira e tinha três moedas de cinquenta centavos. Carambola, com isso não dá para comprar nem um copo de água. O jeito é comer a comida e beber água da torneira da empresa. Respirei fundo e mastiguei o ensopadinho.

No ato frenético de engolir a comida em menos de dois segundos escuto uma voz vacilante.

- A senhora quer beber alguma coisa? - perguntou o garçom, inseguro.

Senti a batata palha arranhar a minha garganta, limpei a boca com a mão esquerda e balancei o dedo indicador negativamente. O garçom saiu vagarosamente e voltou para o seu posto inicial, bem no meio do ambiente e eu fiquei encucada com o termo “senhora” dirigido à mim. Eu, uma pessoa de 25 anos sou uma senhora? Tá eu sei, você deve estar pensando que foi um termo usado para mostrar educação, mas eu não gostei, comecei a pensar em qual termo de tratamento seria o certo a usar comigo, “moça” definitivamente não e nem “garota”, faz me sentir como se tivesse 15 anos e nem ouse pensar em “senhorita”, muito formal. Talvez “mulher”, ou talvez eu só seja uma chata que não tenha mais nada para fazer além de pensar sobre palavras que não importam. Ok, para minha cabeça importa e é neste momento que estou falando sozinha e gesticulando com o garfo que sujo a minha blusa branca nova comprada na liquidação de verão da Hering. Carambola, não devia ter vindo com branco. No ato de limpar com o guardanapo a mancha na gola da blusa que olho para o relógio e... Carambola, vou chegar atrasada de novo e sem escovar os dentes.

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