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Encontro de sexta-feira com o cara do Tinder


- Não entendi a sua pergunta. Quer mais uma cerveja?

(Não surta, respira, sorria levemente e diga que sim.)

- Claro, pode pedir mais uma – respondi no tom mais amável que consegui para disfarçar o meu tédio.

A pergunta que o sujeito sentado na minha frente não entendeu é: quais os acertos e erros que ele tem colecionado na vida? Cá entre nós, não é uma pergunta difícil de se responder. Posso concordar que não deve ser tão comum, as garotas fazerem esse tipo de pergunta, às 7 horas da noite. Ainda mais em um pub com rock ao fundo. Ainda mais no primeiro encontro. Ainda mais com um mero desconhecido que deu match no Tinder (ok, antes de me julgar admita que você também tem um perfil no aplicativo, vai!).

Segui o conselho das amigas, marquei o encontro cedo em um bar movimentado. O combinado foi da Natasha me ligar depois de meia hora de papo, deixa eu ver... Faltam quinze minutos, vai passar rápido. Onde eu estava? Opa! Ele voltou.

- Uma Ferrari por seu pensamento – disse o cara com um botão recém aberto da camisa de flanela xadrez.

Eu sorri, mesmo sem achar graça. Ele deve gostar de carros falou da Ferrari e quer puxar papo já que é o primeiro encontro e... Eu odeio xadrez.

- Então, a gente estava falando sobre os acertos e erros que cada um cometeu até aqui – prossegui.

Ele olha com cara que não entendeu.

- Digo sobre as medalhas e as cicatrizes que tivemos durante a trajetória que se chama vida – gesticulei com as mãos e mordi a língua, seguido por uma piscada. Sei lá o que eu quis insinuar com esse esforço todo.

Ele pareceu que se animou, me contou que até a agora o plano da vida dele estava indo de vento em popa. Tinha se formado em Direito, conseguiu um trabalho em um escritório de advocacia bem conceituado da cidade e tinha acabado de comprar o primeiro carro, um Sandero vermelho, 1.6 e completinho. Disse ainda que gosta de jogar futebol nas quartas com os amigos e aos finais de semana frequenta baladas. Gosta de cães e gatos, mas prefere cães do que gatos. É vegetariano e malha todas as manhãs de terças e quintas-feiras. Iniciou um hábito recentemente: palavras cruzadas.

Eu comentei que não tenho paciência com palavras cruzadas, não entendo nada de futebol, amo carne e odeio vermelho, mas o meu carro é da mesma cor porque consegui um desconto nele. Falo que gosto de contar histórias e sou bem curiosa, por isso estou me formando em Jornalismo. Falo que quando menina queria ser detetive.

- Quais os prêmios que ganhou e os artigos que você já escreveu? Me perguntou ajeitando a manga da blusa e flexionando levemente o bíceps direito.

Eu contei do meu livro de crônicas, do estágio no jornal e sobre a monografia da faculdade. Ele pareceu não ter me ouvido e desandou a contar sobre os prêmios que ganhou e inclusive uma medalha em natação. Meu estômago ronca e eu torço para que ele não tenha escutado, proponho pedirmos a comida. No cardápio, somente hambúrgueres ou batata frita. A primeira opção eu aprendi desde quando usava aparelho nos dentes que o alface é o bandido dos primeiros encontros, pedimos a batata.

A conversa segue mais parecendo um monólogo. O cara sentado na minha frente quer se exibir e fala como ele é atraente, inteligente, cobiçado e um bom partido. Peraí, partido? Ah, agora ele tá falando sobre política e do governo, a crise econômica... A batata chega. E com direito a aquela maionese verde caseira que não é muito aconselhável comer, sempre me dá dor de barriga, mas o gosto compensa, é uma delícia.

- Legal, Beto (ou João, ou melhor, insira o nome que você acha que mais combina com o figura aí)! E as mancadas, digo os erros que você cometeu, sabe? Me conta das sujeitas.

Ele me olha com um ar de quem perdeu o troféu.

- Me conta das cicatrizes que fazem a gente ser como somos, saca? Perguntei da maneira mais informal que consegui, já que estamos em um bar.

A Mariana já havia me avisado para não abordar esses assuntos que segundo ela são profundos e cabeludos de mais para um primeiro encontro, mas eu quis ajudar o rapaz. Afinal, o papo estava muito chato e eu estava pensando que deveria ter ficado em casa, feito um brigadeiro de panela e assistido Friends pela décima vez.

- Erros? (Ele engole uma batatinha, esvazia o copo de cerveja) Não me lembro de nenhum, gata - finaliza.

Nisso o meu celular toca, é o sinal da Natasha. É a oportunidade que eu tenho para inventar que a mãe passou mal, o carro do tio estragou ou pegou fogo na casa da vizinha. Eu olho para o Beto e vejo que ele se esforçou, fez a barba, passou um gel no topete e até abriu um botão a mais da camisa. Ele não merece uma mentira tão deslavada. Falo para a Natasha que depois eu ligo e continuo a conversa sem comentar o termo gata da última frase do sujeito.

Resumo do encontro: o papo não foi bom. Ele falou da ex. Pior falou que via espíritos na casa da ex. Não o bastante, descreveu como eram esses espíritos em termos de comportamento e vestimentas. Fora isso, ele ficou se exibindo o tempo inteiro. Chato, bem chato. O mais cruel foi que eu não consegui ver quem era o Beto. Eu sei que em um primeiro contato você não vai sacar a pessoa toda, mas não consegui ver nem 10% do Beto. Só consegui ver um cara inseguro que estava contando umas lorotas para impressionar que depois de uns copos de cerveja falou da ex e de espíritos (socorro).

A noite terminou com meus dois conselhos pra ele. Número um, ele tem que perdoar a ex e o outro ele precisa se benzer pra não ver mais essas coisas ruins. Seguido por duas batidinhas nas costas (zero romance).

E agora cá estou, pensando se o errado é ele que não se expõe e quer somente falar de como ele é foda e quantas medalhas ganhou ou se sou eu que quero que a pessoa fale do que ela não é tão boa, dos medos e daqueles defeitos que não conseguimos nos livrar. Além do mais sempre gostei da parte suja, sabe? Daquelas pessoas que tem algo de estranho... Uns arranhões, umas manias e até uma doidice de vez em quando. Vai ver sou eu que fico arrumando essas desculpas para todos que tentam se aproximar ou sou chata. Ou doida. Vai saber. Mas pelo menos não falo de ex e de espíritos, no primeiro encontro.

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