Blogger Widgets

O maior fora que eu já levei na vida


(Uma noite de quinta-feira qualquer)

A gente estava ali há duas ou três horas, difícil contar quando o papo te prende e as risadas são frequentes. Estávamos em um bar de esquina desses bem estilo boteco. Nós sempre íamos nesse, porque B gosta. Ultimamente estava gostando de agradar B.

A gente pediu mais dois chopes e estávamos discutindo sobre o destino da nossa primeira viagem juntos. Sim, gostamos de cair na estrada, de atividades radicais e ficar imaginando o que os outros estão pensando. No bar, já havíamos discutido sobre a confusão nas redes sociais com a crise política-econômica do País, falado mal do cabeleireiro e rido do karaokê que rolava lá dentro do bar. É, definitivamente as pessoas que topam a brincadeira não sabem cantar. Eu estava me coçando pra entrar na cantoria, mas B evita exposição em público. Eu me contento, porque já cantei “Como Nossos Pais” com a Clara. Ela veio com a gente, mas já se mandou faz uma meia hora.

Pensar agora faz a minha cabeça latejar, eu não lembro como o assunto veio à tona, mas simplesmente veio. Eu não sei se foi porque eu já estava meio alegrinha por causa dos chopes ou foi pela lua cheia lá fora que resolvi chorar minhas pitangas sobre a eterna busca de um homem decente na cidade. Acabei ignorando o fato de que eu e B nos pegávamos, mas só em caso de carência extrema. A amizade é maior do que o rolê. Até fizemos um acordo brega, desses de filmes, de que se nós chegássemos aos 40 anos solteiros, a gente se casaria. Bem, talvez agora não valha mais.

- Ah, eu tô cansada dos caras me dispensarem – reclamei, mordendo a ponta da língua.

Não sei se foi por causa do tom mais agudo do que o de costume ou foi a mordida na língua no final da fala, mas B não riu.

- Tô cansado desse teu disco riscado. Eu sei o motivo, pelo simples fato que você quer que eles te dispensem – disse.

Eu não preciso comentar que uma verdade dessa não se diz assim de antemão, não em uma quinta à noite. Não quando você está só reclamando por reclamar. Custava ele ter dito algo do tipo: "pois é, é uma merda, mesmo. As mulheres também não facilitam". Custava? Antes que eu pudesse bolar meu discurso de defesa ele complementou:

- Sabe que é verdade.

Soltei uma risada nervosa e dei um gole no chope que já estava quente. Ele quer fazer eu parar de repetir o discurso de sempre. Quer que eu mude o meu ponto de vista. Isso é um absurdo, não é? O ruim de se ter amigos, é que com a intimidade vem a ousadia de cuspir verdades na sua cara. Verdades que doem. Essa última frase dele foi como se B estivesse cravando o dedo indicador direito bem na minha ferida recém cicatrizada e nesse ato tivesse arrancado a casquinha.

B não riu e nem mudou de assunto. Ele só continuou me olhando como se tivesse ganho uma partida de xadrez. E aquele boteco pareceu que diminuiu de tamanho. Eu teria ido embora se não fossemos amigos. Mas como somos, em seguida eu contei para ele o meu último casinho fracassado, para descontrair, para B rir junto comigo, como fazíamos sempre. Mas ele não riu. De novo.

- Eu não sei o que eu falei de errado, era só pra ser uma piada -  menti, olhando para as minhas unhas dos dedos da mãos com o esmalte preto descascado.

- Você está se autoboicotando, como sempre. Droga, cara, somos amigos. Eu sei qual é o teu lance, você fica reclamando que as pessoas são chatas, mas na real você procura caras indisponíveis pra pegar e quando não dá certo, você faz piada por uma semana e depois tira o seu da reta dizendo que eles não quiseram. Quando um tá a fim tu inventas uns três defeitos pra dispensar o cara. E aí fica nesse discurso de que só tem gente chata – disse, em seguida bebeu o último gole de chope quente do copo.

Senti minhas narinas dilatarem, meu coração acelerou. Ah, eu não dei aquela liberdade, afinal B nem é tão meu amigo assim, somos colegas de boteco, Clara que é mais amiga dele.

- Não seja ridículo! Como se eu gostasse de sofrer e fosse louca assim pra ficar dispensando todos os caras que aparecem – falei quase gritando.

- Cara, eu falo uns três nomes aí só das histórias que tu me contou. E eu já falei que por mim a gente ficava mais vezes.

Ah, então era isso. Ele quis me atingir para reafirmar isso. Eu lembro da noite que ele disse que por ele a gente ficava mais vezes e quem sabe, dava de evoluir para um relacionamento de verdade. Mas B não é pra mim. Ele é esquentadinho (como vocês puderam notar), ainda mora com os pais e fuma. Eu sei, é cruel, mas eu teria vergonha de andar com ele de mãos dadas na rua (me julguem). Uma coisa é sair para beber e a gente ficar lá de vez em quando. Outra bem diferente é a gente ser um casal. (Sim, eu sou uma pessoa horrível)

- Tá pontuando as desculpas, não é?

É, ele também sabe da minha covardia. Eu corei.

- Não é isso, é que…

Eu não consegui pensar em nenhuma desculpa, droga!

- Então faz assim, quando você acordar, me liga – falou num tom mais baixo que o normal e sorriu sarcasticamente.

Ele fica lindo quando faz isso, mas isso não vem ao caso agora. Em seguida, B colocou uma nota de vinte reais na mesa de plástico. Eu fiquei ali embasbacada, “digerindo” o que havia acontecido. Merda, o chope aumentou pra R$ 13, tomara que eu tenha saldo no crédito se não, tô ferrada!

2 Comentários:

  1. Acabei de ler seu livro "expectativas" e achei incrível.Por causa dele vim aqui,e por aqui dizer que você é incrível escrevendo.Seus textos são sinceros,diretos e envolventes,isto é,muito bom!Dei boas risadas com seu livro,mas também me fez refletir sobre muitos assuntos!Fiquei ainda mais feliz por você também ser joinvillense!Quem sabe um dia não se vemos por ai?
    Parabéns♥♥♥

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fiquei muito feliz com o seu comentários, Ana! É um incentivo para eu continuar nesta jornada de escritora. :)

      Excluir

Oi, gente! Este espaço é dedicado à vocês! Opiniões, críticas e sugestões sobre o post ou blog são publicados aqui. Se você não tem um blog, pode comentar pela opção Nome/URL. Também sinta-se à vontade para entrar em contato comigo pelo priscilandreza@gmail.com :) Beijos!